A obra "os Princípios da Filosofia", publicada quatro anos após a restauração da independência de Portugal, em 1644, portanto, foi redigida para servir de manual para o ensino da Filosofia nas Universidades, substituindo os manuais escolásticos existentes. Por isso, ela sintetiza todo o sistema filosófico cartesiano. A filosofia cartesiana (de Descartes) foi constituída com o objectivo geral de encontrar os princípios fundamentais que pudessem garantir a verdade absoluta do conhecimento. Esta preocupação com a verdade, compreensível se nos lembrarmos que Descartes viveu numa época de crise e de cepticismo, leva-o a duvidar de todo o conhecimento até então constituído, procurando ele mesmo pôr à prova esse conhecimento através da dúvida. A decisão de duvidar e suspender o juízo leva-o a descobrir uma primeira certeza: a de que para poder duvidar, o ser humano tem de existir enquanto ser pensante ou cogito. A existência do pensamento é, portanto, a primeira certeza do sistema filosófico cartesiano, e esta certeza resulta da evidência, isto é, da clareza e da distinção com que apreendemos tal ideia. A partir deste momento, Descartes encontra-se munido de um critério que lhe permite distinguir rigorosament o conhecimento verdadeiro do falso (critério da evidência, fundamentado na clareza e distinção de uma ideia).
O passo seguinte será o de descobrir se somente o nosso pensamento existe, pois esta é a nossa única certeza. O caminho é o de analisarmos o conteúdo do nosso pensamento, para descobrir se nele existem ideias que se nos apresentem com essa mesma força de indubitabilidade. Esta auto reflexão ou intuição racional vai levar Descartes à demonstração da existência de Deus como ser perfeito ( já que temos dele uma ideia inata, que só pode ter origem no próprio Deus que deixou inscrita essa ideia na nossa razão como uma espécie de assinatura do criador na sua obra) e, de seguida, à demonstração da existência do mundo material e corpóreo.
A existência do mundo material decorre da impossibilidade de um deus perfeito nos enganar; sendo Deus um ser perfeito, como acabou de concluir - segunda certeza - não pode enganar-nos e, por isso, o mundo exterior não pode ser uma ficção ou uma ilusão proveniente de um deus enganador.
É na sequência deste processo de descoberta das ideias inatas, - os princípios que devem fundamentar todo o conhecimento verdadeiro (que não pode basear-se nas informações sensoriais, mas exclusivamente na razão) -, que surge na obra a reflexão sobre a natureza da substância e a inventariação das substâncias constitutivas da realidade. Analisando as ideias que possuimos das coisas, Descartes concluiu que temos noções gerais que dizem respeito a todas as coisas e temos noções particulares que traduzem propriedades ou atributos dessas noções gerais. Essas noçõe gerais são as noções de substância e as particulares são os atributos da substância. A substãncia é o que "está debaixo de" ou o que suporta as qualidades ou atributos que traduzem os diversos modos de ser da substância. A substância é, portanto, tudo aquilo que pode existir sem auxílio de qualquer coisa criada. Por isso, distingue-se dos seus atributos que, pertencendo-lhe, não podem viver sem ela. Para afirmarmos que uma substância existe, temos, em todo o caso, de conhecer os seus atributos.
Podemos agora perguntar se tudo o que existe é da mesma natureza, isto é, se só há um único tipo de substãncia que difere apenas nos atributos acidentais que a caracteriza. A resposta de Descartes, relativamente às coisas criadas, é dualista: existem dois tipos de substância, a substância imaterial, ou substância pensante "Res cogitans" e a substância material ou "Res Extensa".
Há ainda uma terceira substância - Deus. Deus é uma substância incriada que existe por si só, enquanto as substâncias criadas só existem mercê do acto criador de Deus que além de as ter criado as conserva. Há em cada uma destas substâncias um atributo essencial, que é a propriedade que define a sua natureza; é desse atributo essencial que derivam todos os outros. Assim, se analisarmos a natureza de cada um desses três tipos de substâncias existentes concluiremos que o atributo essencial da substância divina é a infinitude de que decorrem atributos como a omnipotência, a omnisciência, a suprema perfeição, a bondade. O conhecimento da substância divina é limitado pela nossa imperfeição. Por intuição racional, concebemos claramente a natureza de Deus, a partir da ideia inata que temos dele, mas a sua compreensão está fora das possibilidades do nosso entendimento, por sermos seres finitos e imperfeitos.
O atributo essencial da substância pensante é a sua imaterialidade de que decorrem atributos como pensar, imaginar e sentir.
O atributo da substância material é a extensão de que decorrem atributos como a grandeza, o comprimento, a largura, a profundidade.
Da união íntima das duas substãncias criadas (Res Cogitans e Res Extensa) resulta o composto humano. O Homem é, então, constituído por duas substâncias, e da sua união íntima decorrem atributos como os apetites, as paixões e os sentimentos. Apesar desta união íntima, Descartes considera que as duas substãncias mantêm a sua natureza defendendo um dualismo antropológico.
Em conclusão, Descartes entregou-se a um projecto grandioso: o de fundamentar todo o conhecimento em bases sólidas, garantindo a sua validade universal e a sua necessidade lógica. Admitiu ser possível construir, unicamente por via racional, um conhecimento da realidade, que a experiência teria apenas que ir confirmar. Apesar de estar convencido da validade absoluta dos conhecimentos a que foi conduzido pelo processo metodológico que usou (um método estruturado segundo o modelo matemático), podemos questionar muitas das suas ideias: qual a legitimidade de deduzir a existência efectiva das substâncias das ideias que temos delas (deduzir a certeza da existência de deus a partir da ideia que temos dele, por exemplo); será possível construir um sistema do mundo completamente a priori sem um diálogo permanente com a experiência e a experimentação? Poderemos continuar a admitir o seu dualismo antropológico?
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[isto é bom]
Posted by: Mournful | 12/08/2006 at 11:38 AM