Leitura de um professor sobre a entrevista da ministra da Educação à VISÃO em 22 Junho 2006.
“A minha área de trabalho era a Sociologia do Trabalho e, quando saíram
os resultados do Censos 2001, foram muito surpreendentes os dados do
insucesso, no ensino secundário”.
O conhecimento da realidade educativa por parte da senhora é de tal
ordem, que foi através dos Censos que ela se apercebeu de uma realidade
que já toda a gente que se dedicava a estudar, reflectir e trabalhar no
ensino sabia há muito. Aliás os seus antecessores do PS fizeram
excelentes levantamentos dos problemas do ensino e tinham já um
diagnóstico muito bem feito da situação. É claro que a senhora, como
sempre a Leste da realidade da educação, foi aos Censos ver coisas que
inúmeros estudos já tinham detectado. Por aqui se vê o grau de
integração que esta senhora tem no ensino em Portugal. Aliás a
Sociologia do Trabalho e a Pedagogia no Ensino Básico são duas áreas
muito parecidas. Daqui se depreende que só aborde o ensino do ponto de
vista laboral e administrativo e não do ponto de vista pedagógico, ou
seja, não consegue conjugar as medidas que toma, com a melhoria
pedagógica das escolas. Falta-lhe sempre metade do pano.
“Mas, progressivamente, a componente lectiva diminuía e a
expectativa, no caso dos professores do 1. Ciclo, era a reforma por
volta dos 52 anos”.
Como sabemos a redução da componente lectiva não se aplica ao 1º
Ciclo. Os docentes do 1º Ciclo dão sempre 25 horas lectivas de aulas. A
redução aplica-se aos outros ciclos, mas também por isso os outros
reformam-se mais tarde (60 anos) e os dos 1º Ciclo aos 55 anos e não
aos 52 anos. Todos com 32 anos de serviço. O facto dos docentes do 1º
CEB se reformarem aos 55 e os outros aos 60 tinha a ver com o desgaste
psicológico de passar 32 anos de serviço numa sala de aula por 25 horas
semanais. Os outros iam reduzindo a carga lectiva, mas reformavam-se
mais tarde.
A Ministra joga maldosamente com 3 dados.
Primeiro os 52 anos. Já ninguém se reforma aos 52 anos. Isso era
dantes quando havia professores do 1º ciclo e educadores com o 9º ano e
bacharelato. É claro que cumpriam os anos de serviço para a reforma
antes dos 55. Mas isso já não existe há muito tempo.
Depois a idade da reforma e a redução lectiva. A senhora quer
fazer crer que os docentes do 1º ciclo se reformam cedo e fazem redução
da componente lectiva. Ou seja, junta como exemplo estas duas
circunstâncias no 1º ciclo, quando elas não coexistem aqui. Ora isto
apimentado com a mentira descarada dos 52 anos é de facto, uma
desonestidade enorme que tem apenas como fim passar para a opinião
pública uma situação laboral que é mentira e assim, com habilidade
“manhosa” fazer crer que a carreira docente é como umas férias. É uma
atitude deliberada de desinformação e de calúnia, com a finalidade
demagógica de colocar deliberadamente a opinião pública contra os
professores com base em puras mentiras habilmente tecidas.
Depois remata com a velha máxima:
“A escola, actualmente, é um espaço com muitas pessoas que ali estão muito pouco tempo”.
Isto na minha terra tem um nome...
“(..) porque há muitos professores que não se reconhecem nesta escola reduzida ao mínimo”.
Eu sei que vivemos num país de ignorantes e de tolos, que vão atrás de
uma boa dose de populismo barato, mas há coisas que ultrapassam
qualquer limite. Que um feirante ou um trolha digam isto eu ainda
aceito, mas uma Ministra?
Isto é o equivalente a dizer: -os políticos são todos uns corruptos, ou – apanham-se lá e depois querem é mamar.
Uma pessoa que assume o mais alto cargo da Educação em Portugal dizer
uma frase destas?. Dizer isto de uma escola onde ela própria se formou,
onde se formou o médico que a trata, onde se formou o amigo Sócrates
que a desencantou?
Dizer isto de centenas de milhar de profissionais que são a última
linha que nos separa da barbárie, da ignorância e de um futuro de
escravidão neo-liberal?
Esta senhora nunca esteve numa escola.
“Outros sindicatos concordam que não é sustentável ter cada vez mais professores a trabalhar menos nas escolas”.
Mas quem é que lhe disse que há professores, ou sindicatos, que
estão contra o facto de haver acertos na redução da componente lectiva
dos professores mais antigos? Esta redução é um direito legal que os
docentes têm porque o seu Estatuto assim o consagra. Mas mesmo assim,
quem é que disse à senhora que a nossa contestação tem a ver com isso?
Eu ainda não ouvi ninguém opor-se a que os docentes cumpram o seu
horário como sempre o fizeram... e que esse horário seja igual para
todos. Se não o é... então que seja... Isso nunca esteve em causa e não
é isso que é contestado.
Mais uma vez ao dizer esta clamorosa mentira, a senhora procura
passar a imagem que o que move a contestação é o facto dos docente não
quererem cumprir o seu horário atribuído por lei. Acabar com as
reduções da componente lectiva e regulamentar a componente não-lectiva
era uma mudança rápida que a senhora podia fazer em 3 tempos e não iria
ter qualquer tipo de contestação. Aliás, há muitos professores que nem
pedem essa redução porque preferem trabalho lectivo ao não lectivo sem
sentido.
O que os docentes contestam, isso sim, é que a regulamentação da
componente não-lectiva possa ter como consequência a melhora na
qualidade do ensino e não meramente o tomar conta de meninos para
agradar aos pais.
Mais uma vez, mente ao povo português com a clara intenção de denegrir a classe que devia representar, gerir e ganhar.
“Pareceu-nos que os pais são a melhor entidade exterior para
avaliar (os docentes)” mesmo os analfabetos têm a noção de quanto os
filhos progrediram”
Em primeiro lugar alguém tem de explicar à senhora o conceito de
avaliação exterior. Ora os pais, os conselhos executivos e os
professores do departamento são entidades INTERNAS da escola que são
parte interessada e têm até interesses no caso. Ora eu pensava que
avaliação exterior era, por exemplo uma avaliação de universidades, da
Inspecção, de organismos como as ECAE os CAE, enfim, onde se
concentrassem pessoas mais habilitadas que o normal e que tivessem um
olhar isento e imparcial sobre os docentes, versando critérios de
avaliação concretos e objectivos, que pudessem ser verificados,
contestados, medidos... enfim... uma avaliação séria e como deve ser.
Em vez disso a senhora vende como avaliação externa a avaliação de
analfabetos que têm interesse directo na matéria. Eu não tenho nada
contra os analfabetos, nem contra os pais dos alunos. Eu sou pai e
quando tenho um problema falo com os professores dos meus filhos, com o
director de turma ou com a gestão da escola e discuto as coisas. Para
além disso os pais têm assento nos principais órgãos de gestão e até
pedagógicos das escolas e podem discutir e dizer o que querem. Nunca se
me constou que os pais não fossem ouvidos numa escola, ou que aqueles
que querem participar na vida escola alguma vez tenham sido impedidos
de o fazer ou ignorados.
Por isso a minha impossibilidade de entender esta medida fora de
um conceito de populismo rasca e de completa ignorância sobre o que é o
ensino, a pedagogia e o trabalho dos professores nas escolas
portuguesas. A proposta da Ministra é que ao pais avaliem o trabalho
“lectivo” dos professores (é este o termo usado na proposta do ECD).
Ora isto é muitíssimo grave. É o mesmo de colocar os doentes a avaliar
o trabalho técnico dos médicos.
Só professores ou pessoas devidamente habilitadas na área é que podem
avaliar professores. Só quem percebe, tem formação e experiência em
educação é que pode avaliar a educação. Os professores não podem ser
avaliados por engenheiros, por médicos... ou por sociólogos do
trabalho. A prática do professor é um assunto sério, não é tema para
conversas de café como o futebol.
Portanto só o facto da ideia ser ventilada representa um desrespeito sem limites sobre esta actividade profissional.
Ninguém põe em causa as capacidades dos pais, o que os professores
reclamam é respeito pela sua actividade “lectiva” pois é isso que lhes
dá a sua especificidade e capacidade profissional. E isso constrói-se,
não se sabe automaticamente só porque se tem um filho na escola, ou já
se lá andou.
“Há professores no 10º escalão que não dão aulas há 25 anos”
.
A Ministra está indignada com isso? Mas há 30 anos que temos
Ministros e Secretários de Estado da Educação que nunca deram uma aula,
nem formação para a docência têm e, no entanto, chegam ao topo da
hierarquia. Então em que ficamos?
Suponho que se refere a pessoas que desempenham cargos de gestão e
coordenação, porque de resto não conheço professores que não dão aulas
e que estejam a beber café no bar a subir de escalão. Portanto a
Ministra considera que gerir uma escola, coordenar um serviço, ou
coisas que tal, não devem dar direito a ser professor e a subir de
escalão.
Mas isto sou só eu a pensar, porque para as pessoas que lêem a
entrevista o que ressalta é que há professores que NÃO TRABALHAM e
sobem ao topo da carreira. Ora esta afirmação é até criminosa. Deveria
inclusivamente ser alvo de processo por difamação, porque se há
professores que não trabalham e recebem ordenado e a Ministra sabe quem
são, então deveria actuar, em vez de lançar a mancha em cima de toda
uma classe que trabalha.
“Os professores devem –e têm esse direito- ser classificados na sua prestação concreta. E não pela Ministra em abstracto”
Questionada sobre como avalia os professores, a Ministra, que não
tem feito outra coisa senão avaliar negativamente os professores,
termina desta forma a entrevista sem ter o mínimo de dignidade para
dizer bem deles nem que fosse por uma vez só e mesmo a fingir. Como é
que uma pessoa que desde o início do mandato (e nesta própria
entrevista) não faz outra coisa que é ofender, caluniar e avaliar
negativamente os professores, tem a coragem de terminar desta forma uma
entrevista.
CONCLUINDO:
Os professores querem ser avaliados de forma rigorosa e justa
Os professores querem trabalhar no seu horário para melhorar as suas aulas e o sucesso dos alunos.
Os professores não têm medo de fazer exames, de ver as suas competências bem definidas e de ver a sua actividade escrutinada.
Os professores querem ter melhor formação.
Agora o que os docentes não admitem é que, a cobro de se querer
implementar estes princípios, se queiram por em prática medidas, que
apenas têm como objectivo a poupança financeira e a destruição de uma
carreira digna, fundamental e que deveria ser prestigiada. Isto é
Educação senhora Ministra não é Sociologia do Trabalho. Aliás eu, como
trabalho, também podia avaliar o trabalho técnico dos sociólogos do
trabalho, ou não?
Que não se brinque. Avaliação sim, mas feita por quem tem competência para tal.
Cumprir o horário sim, mas a melhorar o ensino e o apoio aos alunos.
Progredir na carreira por competência sim, mas com critérios justos
e objectivos e dando oportunidade a todos de subir e não criar uma
carreira com onde apenas uma parte pode ascender ao topo, mesmo que o
resto seja muito mais competente que os que lá chegaram primeiro.
O problema não está nas medidas, mas na incapacidade de as “casar”
com a qualificação do ensino. Esse casamento só pode ser celebrado com
e pelos professores e eu acredito que, se este elenco ministerial não
fosse tão arrogante, mal-educado e autista, os professores estariam a
contribuir para a melhoria das medidas e para a sua implementação. A
arrogância quase sempre esconde a incompetência e a insegurança.
O país está a cair neste logro, sendo levado a crer que as medidas que
se estão a implementar irão melhorar a qualidade da Educação em
Portugal e vão alterar os números do insucesso.
A curto prazo andam todos muito contentes, porque enquanto o pau
bate nos professores folgam as costas deles até mais umas medidas
orçamentais que os tramem.
Só espero, que quando finalmente se tornar claro para todos, que
estamos a passar ao lado daquilo que verdadeiramente deveria estar a
ser feito, não seja depois tão tarde, que tenhamos de ir estagiar aos
países de Leste, quando nem na cauda da Europa tivermos lugar.
A Educação não é como o futebol, onde todos têm alguma estupidez para dizer.
Os professores não são os culpados de um sistema desde há décadas
gerido por incompetentes desconhecedores das realidades da Educação.
A ESCOLA SERVE PARA ENSINAR
SÃO OS PROFESSORES QUE ENSINAM
A ESCOLA AOS PROFESSORES
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